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Crianças com autismo são mais impactadas com o isolamento social, afirma especialista

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O isolamento social e o afastamento da maioria delas da rotina escolar são os principais fatores que vêm acarretando cargas emocionais fortes nas crianças. Nos pequenos com autismo, os desdobramentos podem ser ainda piores se não forem aplicados métodos eficazes na condução do problema. “A mudança na rotina pode causar em qualquer pessoa transtornos alimentares, de sono, ansiedade, irritabilidade. Em autistas, a potência desses impactos é ainda maior”, pontua a fonoaudióloga Karina Oliveira. 

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), de 1 a 2% da população está dentro do espectro do autismo. No Brasil, estima-se que há cerca de dois milhões de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). O autismo é um distúrbio caracterizado por dificuldades de interação e comunicação. Constituído por diversos graus, pessoas autistas vão desde a dependência total de familiares e cuidadores até a condição de uma vida normal, envolvendo estudos, trabalho e relacionamentos.

Para evitar regressões, a manutenção do acompanhamento de toda a rede multidisciplinar também é fator determinante, alerta a fonoaudióloga. “No caso da fonoaudiologia, que trabalha exatamente os estímulos à esta interação, linguagem e comunicação verbal e não verbal, é crucial manter as provocações, para que o paciente não encontre nesse distanciamento mais uma barreira e fator de estresse”, frisa.

Rute e Beatriz, mãe e filha, respectivamente, vêm superando os obstáculos do transtorno desde o diagnóstico, quando a pequena, hoje com quatro anos, tinha apenas um ano e oito meses. “A madrinha de Bia, que é fonoaudióloga, identificou que ela estava apresentando atraso no desenvolvimento e não respondia a alguns estímulos. Ela me orientou a iniciar o acompanhamento e assim fizemos”, relata Rute.

Com as terapias suspensas devido à pandemia, segundo a mãe de forma on-line não funcionou, a dona de casa explica que observou mudanças no comportamento da filha e que precisou se reinventar para dar conta. “Os primeiros meses da pandemia foram muito difíceis, porque ela não entendia que tínhamos que ficar em casa. Ela chorava muito e quando saíamos ela tinha resistência em usar a máscara. Foram dias muito turbulentos. Foi quando resolvi buscar atividades lúdicas na internet para entretê-la”, conta Rute.

Beatriz retomou as aulas e o acompanhamento presencial com a equipe multidisciplinar neste ano, o que, segundo a mãe, trouxe muitos benefícios, apesar do medo de contrair o vírus.

Aos pais e responsáveis que estão sobrecarregados com o trabalho em home-office, a dica é criar uma rotina inclusiva com aproveitamento de momentos de compartilhamento coletivo, como o acordar, as refeições e a hora de dormir. Karina reforça, ainda, que a saúde mental da família também precisa estar sob controle para que estresses e desequilíbrios não sejam absorvidos pelos filhos. “Convém lembrar que nem todo atraso no desenvolvimento é sinônimo de autismo, mas precisa ser investigado através de escuta especializada. Nesses primeiros anos de vida estão sendo formadas conexões cerebrais em maior velocidade, o que favorecem melhores resultados terapêuticos”, reforça a fonoaudióloga. 

“É preciso definir prioridades e ir executando-as de acordo com nossas possibilidades. Em casos de mães, pais ou responsáveis por autistas o ritual de atividades é essencial para manter a qualidade de humor e equilíbrio dos filhos, visto que o hábito de repetições faz parte da configuração do transtorno, como: refazer o mesmo caminho, comer sempre os mesmos alimentos e executar sempre as mesmas tarefas e brincadeiras”, pontua.

Rute mora com o marido e a filha mais velha, com 15 anos, e informa que conta o engajamento de toda a família no processo. “Bia falou suas primeiras palavras aos três anos. Me emociono ao relembrar. Cada pequena vitória nós comemoramos com muito entusiasmo. Contamos com a parceria e colaboração uns dos outros para ir abrindo os ciclos da vida dela”, diz Rute. 

Mudanças

A mudança na rotina das famílias devido ao atual cenário vem sendo um desafio para todos e em muitos aspectos: convívio familiar e social, esgotamento profissional, instabilidade emocional, entre outros. Para crianças com o transtorno, a manutenção da rotina é fundamental para que continuem a se sentir seguros no dia a dia e para que não regressem nos tratamentos já executados. 

Entre os principais prejuízos relacionados à criança com TEA estão: a dificuldade de comunicação; o atraso no desenvolvimento da fala; a dificuldade na formação de palavras e frases e a repetição delas de forma imediata ou tardia, mais conhecido como escolalias; pouco uso de expressões visuais e dificuldade de compreendê-las em terceiros; e impasse em manter diálogos, entre outros déficits.

Com o acúmulo emocional, o transtorno pode intensificar crises de estresse, desencadeando agressividade e alterações comportamentais que atuem como válvulas de escape.  “A dificuldade de comunicação já é um grande desafio de crianças com TEA, especialmente diante deste inevitável afastamento social. Entretanto, é possível amenizar os danos com atitudes simples, como o estabelecimento e cumprimento da rotina, com conversas e explicações para as atuais restrições”, detalha a especialista.

Esta comunicação não precisa e não deve ser feita apenas no âmbito verbal. De acordo com Karina, introduzir a nova rotina, os novos passos de forma lúdica, utilizando-se de brinquedos, roupas, adereços e fotos, por exemplo, pode facilitar esse contato e render resultados significativos. “Cada criança é única e é fundamental que a família seja orientada e acolhida por profissionais que ajude e identifique a melhor forma de se comunicar”, avalia

Por: Diário de Pernambuco

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